sexta-feira, 2 de abril de 2010

Filomena (primeira parte).

Conto exemplar.
Eu conheci a Filomena numa aula de ginástica para grávidas. Hoje eu não entendo o que eu estava fazendo ali, mas na época era moda, todo mundo fazia, e se todo mundo faz, é que deve ser bom, não é?
Bom, pelo menos para mim não foi.
E foi a Filomena que me salvou. Imagina, a professora estava naquela história de senta e levanta, senta e levanta, e eu sentei e não levantei mais. Eu estava me sentindo tonta, e a tonta da professora insistia:
- Levanta, menina, vamos lá! Deixa de preguiça!
E eu, que sou obediente, levantei e sentei de novo sem querer, e tudo foi ficando escuro, e eu fui caindo...
Quem me segurou foi a Filomena. E foi logo dando uma bronca na professora:
- Ô Kátia, não está vendo que a menina está passando mal? Não tem competência pra ser professora não?
Saí da aula com a Filomena, que me pagou um suco de laranja. Nunca mais voltei para a Ginástica de Grávidas, mas arrumei uma amiga. E passei a me encontrar todos os dias com a Filomena para andar na praia. Esse foi o nosso exercício de gravidez. Na revista Cláudia que eu li no cabeleireiro diz que também é uma boa forma de exercício, que aumenta as endorfinas.
A Filomena era muito divertida. Falava muito, falava alto, falava um monte de palavrão. Meu pai sempre me proibiu falar palavrão. Ele também falava, de cada duas palavras cinco eram palavrões. Ele era homem, não tinha problema, né? Mas mulher falando palavrão é muito feio. Uma vez lavou a boca da minha irmã com sabão. Não deu muito resultado não. Até hoje ela é desbocada.
A Filomena, com os seus palavrões, me divertia. Ela é uma pessoa de muita personalidade, muito intensa, e eu admiro isso. Quando a gente ia num restaurante, ou numa lanchonete, ela sempre fazia valer os seus direitos (era assim que ela dizia). Reclamava, brigava com o garçom, chamava o gerente. Uma vez chegou a jogar um prato no chão, porque o bife estava muito bem passado, e ela só gosta de carne sangrenta. Eu confesso que fiquei meio assustada, mas depois até ri e falei para ela:
- Você hoje está o cão que o diabo amassou, hein?
Eu adoro usar esses trocadilhos populares. Eles dão um ar intelectual à conversa, e mostram que a gente tem cultura.
Aos poucos eu fui conhecendo melhor a Filomena. Imagine que ela antes de casar tinha sido piloto de avião! Sabe aqueles aviões pequenos, que as pessoas ricas alugam para não viajar misturadas com as pessoas comuns? Pois é, por incrível que pareça, a Filomena pilotava um avião desses. Que eu saiba, foi a única mulher aviadora da história. Vê como ela tinha personalidade?
Aliás, foi pilotando que ela conheceu o marido, que é empresário. Ela foi contratada para levar um grupo de industriais para visitar uma fábrica no interior, e aí tudo aconteceu. Eu suspirei quando soube.
Já pensou que romântico? Eu imaginei tudo: enquanto o avião atravessa aquele céu de brigadeiro (mas um brigadeiro azul, não cor de chocolate), ele, de terno, pasta de executivo, óculos escuros, um charme, desliga os cinco celulares (ele tem cinco, eu vi), fecha o laptop, e de repente faz uma declaração de amor no ouvido dela. E ela, tomada de paixão, mergulha o avião numa manobra ousada, rasgando as nuvens como quem rasga um sutiã. Confesso que tive inveja, que Deus me perdoe (sei que a inveja é um pecado muito feio, e as pessoas usam uma palavra ainda mais feia para falar de inveja).
É claro que o marido da Filomena exigiu que ela deixasse a aviação quando se casaram. Está certo. Mulher de empresário tem que ficar em casa cuidando dos filhos, dando ordens às empregadas, preparando a casa para as recepções dos homens importantes que vão fazer negócios com o marido. Confesso que mais uma vez tive inveja. Às vezes eu vejo o meu marido no sofá, de pijama, tomando cerveja enquanto vê o jogo do Flamengo, e penso que se eu tivesse casado com um empresário não precisava trabalhar. Mas, enfim, cada macaco no seu galho. Cada cabeça, uma sentença. Nem todo mundo tem a mesma sorte.
Nossos filhos nasceram, com um intervalo de uma semana, o dela primeiro, o meu depois. O Paulo Henrique, meu filho, era uma gracinha. Até hoje. O filho dela, o Cauê, também era um bebê muito bonitinho. E a nossa amizade foi aumentando.
A gente levava os nossos bebês nos carrinhos para tomar o sol da manhã na praia (dizem que faz muito bem aos ossos). Era uma delícia. Às vezes, ela se aborrecia com os ciclistas. Um dia ela chegou a derrubar um rapaz de uma bicicleta, porque ele passou bem perto do carrinho do Cauê. Ah, eu esqueci de dizer, ela é muito alta e forte, muito diferente de mim, que sou baixinha e franzina. O rapaz levou um susto. Quando viu aquele mulherão gritando com ele, xingando de todos os palavrões, subiu rapidinho na bicicleta e deu o fora. Quando um não quer dois não brigam (sem querer ostentar conhecimento, aí vai, humildemente, mais um trocadilho popular).
Eu falei que o Cauê era muito bonitinho. Ele era mesmo. Mas à medida que foi crescendo, foi ficando meio nervoso. Acho que ele puxou ao gênio da mãe. O que deve ser bom. Ele deve se tornar um adulto decidido também.
O problema é que toda vez que a gente se encontrava ele enchia o meu filho de bolacha. E a mãe não fazia nada. Eu tratava de tirar discretamente o Paulo Henrique do caminho. Quando dava.
Como falava o meu pai, a gente só deve andar com boas companhias, e eu faço questão de criar o meu filho de acordo com essa orientação. O Cauê é filho de pais que tem dinheiro, são bem situados na sociedade. Enfim, uma boa companhia. Bater no meu filho é um mal menor. A gente contorna.
O tempo foi passando, os filhos crescendo. Eu convivia muito com a Filomena e o filho. Às vezes a gente ia à praia, e o meu marido ia também. Mas nós não conhecíamos o marido dela. Ele é um empresário importante, tem umas fábricas não sei de quê, trabalhava muito, estava sempre viajando.
A Filomena passou a se queixar muito. Dizia que o marido quase não ficava em casa, que não dava atenção para ela e para o filho, que saía para jantares de negócios e muitas vezes só voltava no dia seguinte, que quase não conversava com ela. Eu explicava a ela que a vida de um empresário deve ser muito difícil, que ela tinha que ter paciência. E ela sempre terminava lembrando os tempos de aviação, e me contava da sensação de liberdade que tinha no céu, pilotando seu avião.
Num dia ela chegou a me dizer que tinha outro problema com o marido, mas que não ia me contar, porque era uma coisa muito íntima. Apesar da curiosidade, eu não insisti no assunto. Sabe como é, mais vale um pássaro na mão que dois voando. Eu não queria perder a amizade dela.
Eu dizia para ela que eu queria conhecer o seu marido, apresentá-lo ao meu marido. Quem sabe, com uma boa conversa de empresário, o Leonardo ensinava o Pedro Paulo a ganhar dinheiro? Como eu já falei antes, eu sigo a orientação do meu pai, de andar sempre em boas companhias. Afinal, o hábito não faz o monge.
Um dia, a Filomena veio com a boa notícia. O marido tinha aceitado ir para um hotel fazenda com a gente. O preço era meio salgado, mas eles dividiam em 12 vezes, de forma que nós podíamos pagar.
E assim fomos nós, passar o fim de semana em Resende, com o Leonardo, a Filomena e o Cauê. O Pedro Paulo brincou, dizendo que ia botar uma roupa de futebol americano no Paulo Henrique, porque assim, quando o Cauê batesse, o Paulo Henrique estaria mais protegido. Eu disse a ele que não tinha gostado da brincadeira. Lembrei que eu tinha, pela minha facilidade de fazer amizades, conseguido me relacionar com pessoas de categoria, e que era bom para o nosso filho conviver com um menino que tinha nascido em berço de ouro.
O Cauê só era meio nervoso, só isso. Eu nem liguei quando, numa visita, ele quebrou uns três ou quatro bibelôs na mesa da nossa sala. Coisa de criança. Se conselho fosse bom, macaco não punha a mão em cumbuca. Eu sou muito compreensiva.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Pequeno conto narrado através de um piloto da Luftwaffe em 1943

Era a última saída do dia para mim, em Prokhorovka. Estávamos agora baseados em Belgorod, a Sul da linha de frente. Subi em meu F4 semi-novo, que herdei de um falecido companheiro após ter o meu irremediavelmente danificado pela flak inimiga em minha última saída.

A tarde estava ensolarada, ainda antes das seis, neste inverno gelado deste fim de mundo. Sempre com saudades da minha cerveja bock feita pelo tio Hans em seu celeiro, demos a partida e acelerei pela pista.

Minha missão: destruir o que encontrasse.

A oposição era tremenda, havia mais que o dobro de aviões inimigos, e nosso Staffel ainda estava usando os antiquados Friedrichs. Teríamos Gustavs se nosso prestígio junto ao OKL aumentasse, nos dizia o GeschwaderKommodore, GuntherRall. Teria que me virar com o F4 mesmo. Para dizer a verdade, gosto muito deste avião, mas o que ouvi falar dos novos G2 e G6 me atiçou a curiosidade.

Havia um dificultador extra, que deu uma pitada a mais de emoção a esta missão. Estava sozinho. Caçando solitário, tentando não virar presa fácil para o bolchevique hediondo. Com sorte e perícia levaria ao menos um para o fundo de seu amado solo pátrio. Que leve minhas lembranças ao Lenin, e explodam os dois!

Ahá, lá estava um dot suspeito sobre território inimigo, seguindo para sudoeste bem à minha frente. Como tinha a vantagem da altitude, segui-o e invertendo, mergulhei como a chama divina. O korno percebeu minha manobra e se esquivou como só um comunista sabe fazer. Percebendo mais 4 prováveis inimigos nas redondezas segui voltando para sul. Estava a 5K de altitude após o mergulho, e vim recuperando. Após poucos minutos o vermelhinho desistiu da perseguição, apesar da evidente vantagem numérica. Exemplificou bem a incapacidade para perseverança do eslavo médio.

Eis que me surge um pedido de socorro pelo rádio. Nossas unidades de terra estavam sob ataque. Exatamente no bloqueio de armas anti-tanque no setor F4, logo a norte de Belgorod. Alguém iria pagar caro pela ousadia. Segui para lá e iniciei uma descida em espiral acentuada, forçando a vista para ver o bandido verde sobre o solo também verde.

E lá estava ele. Um Sturmovik lento como uma jaca velha seguindo sobre a estrada. Como uma sombra, reduzi a potência e mergulhei sobre o maldito. Ao chegar bem perto, a uns 200m disparei todas as armas, mandando chumbo quente no korno. Diversas explosões na asa esquerda e fuselagem, na área do motor, mas ao olhar para trás vi que o tinhoso seguia voando, e o que é mais incrível, atacando!! Devia estar sentindo falta de seus ancestrais, ou era masoquista!

Virei para uma nova passagem e larguei chumbo no porco. De novo pelo lado esquerdo, novamente diversas explosões e o bicho começou a expelir a doce fumaça negra do destino. Me virei para a base, pois a esta altura o porco estaria uivando fora seus bagos no rádio pedindo socorro. Assim me privei de ver uma bela cena de espatifamento e chamas.

Mas logo fui informado que um Sturmovik de fato havia explodido ao ser submetido a uma rápida desaceleração em contato com sua amada terra pátria. Sempre digo que o que mata não é a queda, mas sim o fim dela. Ao cair, siga caindo!!

Verifiquei que não estava sendo seguido e voltei para a base em Belgorod, já me lembrando da cervejinha artesanal da família e do doce inverno da Floresta Negra. Tenho que matar mais bolcheviques para voltar para casa a tempo do próximo inverno! Ao menos teria a schnapps enviada pela turma da infantaria como de praxe. Boa sorte aos garotos da lama, que sofrem mais do que nós, da Luftwaffe.

Tchuss

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Comparando Varig e GM

Envio texto escrito pelo meu sogro, que trabalhou por muitos anos na Varig:

"GM e Varig, duas empresas com histórico semelhante: grandiosas em seus dias de glória e decadentes na presente década. O imenso know-how em suas respectivas áreas de atividade, a importância de suas marcas e os aspectos sociais envolvidos justificava plenamente encontrar uma solução para a sobrevivência das duas empresas.

A tentativa de solução veio através do processo de “recuperação judicial” no Brasil e pelo capítulo 11 da Lei das Falências nos EU. As semelhanças terminaram ai. Em apenas 40 dias nasceu a Nova GM mais enxuta, com menos marcas, menos concessionárias, menos fábricas e menos empregados. Aqui, após meses de idas e vindas e de leilões onde se apresentaram somente investidores abutres, o processo de recuperação de Varig terminou melancolicamente com duas empresas: a Velha Varig, cheia de dividas e com somente um avião e a Nova Varig completamente desmantelada que hoje pertence a Gol.

Mas o que fez diferença mesmo foi a vontade política. Enquanto nos EU, país mais capitalista do mundo avesso à participação do Estado em qualquer atividade empresarial, o Governo injetou US$ 50 bilhões e tornou-se, temporariamente, dono da GM apostando na sua recuperação e no retorno do seu empréstimo, aqui a Varig não teve a mesma sorte e acabou desaparecendo."


Ivan Ribeiro dos Santos

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Quem quer ser um milionário.

Fui ver o filme meio a contragosto, por insistência de um amigo, que havia adorado. Minha resistência se devia à leitura de algumas críticas favoráveis publicadas nos jornais. Atualmente fica difícil ler alguma crítica realmente consistente nos meios de comunicação. O que de vê são textos num estilo coloquial-telegráfico-moderninho, em que não há qualquer opinião, ponto de vista, critério. Se for isto o que se ensina nas Faculdades de Comunicação, realmente é melhor não ter diploma. E se estas antas pós-modernas, que saem em série das faculdades e parecem ser todas uma só, tal a mediocridade pasteurizada dos seus textos, gostam de um filme, procuro manter uma distância higiênica.

No entanto, munido da maior boa-vontade, fui ao cinema. E comecei a detestar o filme logo nas primeiras cenas - cenas de tortura numa delegacia. É difícil transformar tamanha brutalidade em objeto estético. Mas o filme faz algo pior. As tais cenas (como, aliás, todo o filme) são realizadas com todos os tiques e truques de um filme publicitário – edição picotada, cores estouradas, closes nos rostos e corpos, ângulos inusitados de câmara, tudo isto como maneirismo, sem nenhuma função narrativa. O velho Hitchcock dizia que uma câmara dentro da geladeira é justificativa mais que suficiente para sair do cinema. Num bom filme, cada ângulo, cada movimento deve expressar alguma coisa.

Se a linguagem da publicidade e do videoclipe adotada pelo diretor serve para vender produtos, fetichizando-os (sejam eles pastas de dentes, sabonetes, carros esporte ou o novo astro da música pop), suspeitei que naquelas cenas o diretor estava vendendo a própria tortura. O diretor estava talvez tentando me fazer compartilhar com ele do gosto perverso de torturar o personagem! Um inglês que filma com prazer a tortura de um indiano, evitando sujar as próprias mãos – são outros indianos que aplicam a tortura!- ultrapassa largamente a mais depravada imaginação colonialista.

Mas eu estava enganado. A situação era pior. Pelo menos o torturador tem alguma convicção, se não de uma ideologia, pelo menos do seu gosto depravado. Aos poucos, com o passar do tempo, a perspectiva do diretor foi se tornando mais clara.

Toda obra de arte apresenta um determinado ponto de vista. Na obra de arte pura, o ponto de vista é estático, de contemplação da realidade. O artista convida o público a apreciar a obra de uma perspectiva neutra. Segundo James Joyce, as obras que não alcançam tal nível estético, as obras impuras, contaminadas pelo desejo de provocar uma reação, podem se dividir em 1) didáticas, se procuram despertar a aversão do expectador (por exemplo, as obras politicamente engajadas, que querem pregar lições de moral), ou 2) pornográficas, se buscam despertar o desejo (a publicidade, que tem por fim obrigar você a comprar o sabão em pó X em lugar dos concorrentes, os filmes de sexo, etc.).

Ao adotar a linguagem da publicidade, o filme se filia à corrente pornográfica – quer provocar o desejo do espectador por alguma coisa. Um crítico indiano falou em pornografia da miséria, mas me parece que não é propriamente a miséria que o filme vende, é algo pior.


Aliás, esta foi a impressão de todos nós que assistimos o filme naquele dia. O filme, como um peixe estragado, só vai piorando ao longo do tempo. É como se fossemos descobrindo, para usar uma imagem cara ao diretor, que por baixo da fossa infecta do seu trabalho houvesse uma fossa infinita, desprendendo um mau odor metafísico que contamina mesmo a lembrança. O melhor que o diretor poderia fazer, para o bem da Humanidade, seria reservar suas produções para seu vaso sanitário particular.


Que produto o diretor tenta vender? Seu próprio narcisismo – a visão entediada e cínica que um membro do clube dos moderninhos – cabelos raspados do lado e despenteados por horas diante do espelho, roupas descoladas, atitude blasé e cruel – tem, não da realidade, mas de si mesmo. É a pornografia do narcisismo, que provoca o prazer dos outros narcisistas que se reconhecem na absoluta indiferença pela vida mostrada na tela. Não importa torturar o personagem, cobri-lo de fezes – ali, nada importa, só mostrar a pseudo-estética publicitária dos “antenados”, que fazem gracinha com a miséria dos outros para espantar o tédio.


Não há nada mais provinciano que um cidadão do mundo. A riqueza de uma situação depende em grande parte da riqueza interior do contemplador. A pessoa que está à vontade em todo o mundo, e já não vê novidade em nada, é ela mesma um tédio, um vazio. Por isto o diretor filma na Índia e não vê nada da Índia – podia ter feito seu filme em qualquer outro lugar do mundo, onde existe miséria material (as favelas e o lixo que o diretor se compraz em mostrar) e miséria espiritual (na forma de programas de auditório).

Não é à toa que, como qualquer turista débil mental, quando quer dar uma cor local, o diretor vai ao Taj Mahal, não o Taj Mahal da história, da arquitetura, mas o Taj Mahal do cartão postal, da foto com que o viajante imbecil vai atormentar os amigos na volta da viagem. O diretor é o tal turista imbecil, e quer fazer de nós, pobre público, espectadores dos seus slides de viagem (um ritual de classe média felizmente extinto), exibindo com arrogância sua penúria intelectual. Porque somente um imbecil vai à Índia de tradições milenares e riquíssima história e se contenta com o Taj Mahal dos guias de turismo.

Num certo sentido, talvez o crítico indiano tenha razão. O filme é mesmo pornografia da miséria – da miséria intelectual do diretor, que exibe seu pobre narcisismo para o clubinho de moderninhos entediados e hipócritas.

O diretor, no seu exibicionismo, mostra-se totalmente indiferente ao destino dos personagens, que nunca se tornam reais por serem mostrados com a mais absoluta indiferença. Assim, não hesita em torturar e cobrir de fezes seu protagonista, não hesita em mostrar total falta de interesse pelas seqüelas da tortura (não há marcas psicológicas no torturado, que sai da delegacia cumprimentando os torturadores), não hesita em hipocritamente dizer que a saída da pobreza só é possível através de um milagre, que vai fazer de você um novo apresentador de televisão do terceiro mundo, mas que isso no fundo não faz nenhuma diferença. Aliás, nada faz diferença.

Alguns censuraram no filme as cenas de extrema violência. Ora, os entediados e blasés precisam de experiências sensoriais extremas para sentir alguma coisa. A necessidade do choque revela a anestesia da sensibilidade.

Outros comemoraram a trilha sonora pop, uma pobre imitação da música dos guetos negros norte-americanos, que poderia ter sido feita em qualquer lugar.

Alguns ainda elogiaram a aproximação com Bollywood. Bollywood, com raras exceções, é o lixo da produção cinematográfica indiana, o equivalente dos filmes da Xuxa, só que para adultos lesados intelectualmente.

Mas o mais espantoso é que algumas pessoas disseram que se tratava de um conto de fadas! Os contos de fadas, ao contrário do que se possa pensar, são de um absoluto realismo, transmitido através de recursos fantásticos. Como os heróis dos contos, também fomos chamados à aventura de viver, também devemos vencer desafios, também encontramos no caminho antagonistas e auxiliares, e, se bem sucedidos, trazemos as vantagens de nossas conquistas para a comunidade a que pertencemos. O filme na verdade é o inverso de um conto de fadas – no seu ultra-realismo tacanho se revela profundamente irrealista, porque não reflete o mundo e as pessoas, reflete a mente totalmente absorvida por si mesma do diretor, revela o seu narcisismo doente, que faz pouco da realidade psicológica do conto de fadas, piscando o olho para os outros narcísicos que no fundo não acreditam na possibilidade de milagres. Nada inesperado pode surgir num mundo que é ocupado totalmente por um ego gigantesco e vazio.

Se o leitor quiser ver uma verdadeira obra de arte, que adota uma perspectiva ocidental colonialista sobre a Índia, recomendo O Rio Sagrado, de Jean Renoir. Recomendo também a série de televisão O Mahabbharata, versão do grande épico hindu, dirigida por Peter Brook, com um interessante elenco multicultural. O filme me parece captar o espírito da cultura milenar indiana. Há também um bom cinema indiano, exemplificado pela Trilogia de Apu, do diretor Satyajit Ray.

terça-feira, 14 de julho de 2009




Está no JB de hoje: Há 40 anos, em 20 de julho de 1969, o homem deu o primeiro passo na lua.



Faz algum tempo li alguns trechos do livro de Buzz Aldrin, provavelmente "Magnificent Desolation - The Long Road Home from the Moon " publicados numa revista.



Dois trechos são, no mínimo, curiosos e controversos.



No primeiro deles, Aldrin rememora o momento exato em que deu a notícia da sua ida à Lua para sua esposa. Foi numa lavanderia. Ele pensou no inusitado da situação e quando estava por se culpar pela má escolha do local, a sua mente analítica e treinada retomou a conduta e retrucou: mas será que existe algum lugar adequado na Terra para dar uma notícia dessas!

Em outro momento do livro ele revela uma questão no mínimo perturbadora naqueles instantes que antecederam a missão. Por que escolheram Neil Armstrong para ser o primeiro homem na lua? A questão parecia envolta nos mais escabrosos componentes da corrida espacial americana.

Para ele a escolha poderia residir em alguma falha no seu treinamento... algum problema de temperamento... afinal, o que poderia fazer de Armstrong um ser mais qualificado do que ele?

De tanto se torturar com a questão, resolveu ir direto na fonte. Foi perguntar ao Chefe da Missão Apollo. Suas palavras devolveram a calma ao pobre Buzz e explicaram que o motivo de Armstrong ser o primeiro homem a pisar na lua, na realidade, foi decidido por uma questão meramente técnica. A disposição física do apertado módulo de descida - O Eagle - favorecia a abertura e descida pela escada, primeiro do comandante Armstrong, e depois, do piloto do módulo Aldrin.

Afinal, assim é a vida. Existem outras versões para esta mesma história. Prefiro acreditar nesta.

Muito se fala dessa conquista e dos dois astronautas americanos que pisaram na "magnífica desolação". Mas pouca coisa se diz de Michael Collins, o outro integrante que ficou orbitando com o módulo de comando enquanto o Eagle efetuava a descida e o pouso. Foram 48 minutos de silêncio rádio numa solidão em vôo solo só comparada a de Adão. Esse pra mim, não desmerecendo os outros, é claro, foi o herói da história.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Carta de intenções.

Caro amigo Duda,
Agradeço a você a oportunidade de participar deste blog. Se dependesse dos meus parcos conhecimentos de informática, nem estaria escrevendo neste computador, que também é resultado de sua ajuda de especialista. Enfim, chega de bajulação e vamos ao que interessa.

Espero usar este espaço de forma bastante livre, discorrendo sobre assuntos tão diversos como cinema, literatura, música clássica, artes plásticas, mitologia, religiões. Eventualmente, considero a possibilidade de incluir uma poesia ou um pequeno conto. Comentários sobre fatos do dia-a-dia também farão parte. E tantos assuntos quanto eu tiver vontade. Até mesmo psiquiatria e psicanálise. O até mesmo é por conta de que não quero aborrecer nem o leitor eventual nem meus amigos com uma exploração burocrática da minha profissão - somente idéias próprias, claras e interessantes devem ter lugar (obs: cultores da reforma ortográfica hão de me perdoar idéia com acento – para mim, idéias sem acento, como lâmpadas queimadas, não iluminam nada).

Talvez pareça redundante dizer que parto de um determinado ponto de vista. Acho necessário ser redundante porque no mundo atual pontos de vista parecem seguir o caminho dos dodôs e dos dinossauros. Assim, para fins de clareza, aí vai minha posição pessoal. Em primeiro lugar, adoto uma perspectiva anti-relativista. Mais uma aparente obviedade, que infelizmente escapa aos pós-modernos: sem algum referencial, é impossível emitir qualquer julgamento. Se, como querem Foucault e companhia, toda verdade é um discurso construído pelos detentores do poder, então a visão foucaldiana é também um discurso fabricado pelos poderosos dos meios universitários, principalmente brasileiros e franceses, que imitam o ilustríssimo filósofo careca.

Meu anti-relativismo é de base humanista – um humanismo radical que se pauta na luta diária que cada indivíduo deve empreender buscando a auto-superação, no sentido de um desenvolvimento moral que deve permanecer como meta até o fim da vida. Valores como solidariedade, respeito, amizade, confiança, verdade, bondade, beleza, sejam eles construções humanas ou reflexos de um mundo ideal ao modo de Platão ou da religião, fundamentam minhas posições.

Posições que ficarão mais claras quando eu parar de filosofar e começar a abordar questões mais concretas. A primeira, que prometi a você, meu caro Duda, é um comentário sobre o filme Quem quer ser um milionário, que tivemos a infelicidade de ver juntos. A companhia era boa, já o filme... Bem, há uma cena que para mim resume bem a essência do filme – a cena em que um menino mergulha no conteúdo de uma fossa, ficando coberto de excrementos. Curiosamente, um grande admirador do filme e do diretor, com quem tive oportunidade de conversar, também destacou esta cena como uma das mais importantes, e chegou a me dizer que mergulhos na merda são uma espécie de marca registrada do diretor. Enfim, há gosto para tudo. Antigamente a coprofilia estava incluída no grupo das perversões – hoje, faz sucesso nos cinemas.

Brincadeiras à parte (às vezes me pergunto se é possível fazer humor diante de um tal nível de mau gosto), tentarei ser objetivo. Espero ajudar algum leitor desavisado de se poupar de perder seu tempo com este filme. O comentário completo fica para a próxima.
Desculpem a prolixidade e o tom sério. Um abraço para todos.
Roberto.